A MÃO DO DIABO
Você já ouviu falar nesse filme? Não? Nenhuma surpresa. Apesar de ter sido lançado nos cinemas, “A Mão do Diabo” nunca teve grande projeção. Pessoalmente, acho surpreendente esse pequeno filme ter tido uma chance na seletiva ( entendam como quiserem ) cadeia de cinemas brasileira. Agora, enquanto escrevo ( fim de julho de 2004 ), estreou na TV a cabo. Novamente sem alarde. Não sei se esta humilde crítica fará com que as pessoas se interessem em descobrir o filme. Caso surta efeito, acho que não se arrependerão.
A trama do filme é, no mínimo interessante: um homem vai ao escritório de um agente do FBI encarregado de investigar um assassino serial chamado “Mão de Deus”. O homem confessa que o criminoso seria seu irmão mais novo e, para provar seu ponto, relata a infância deles. Criados por um pai viúvo, tinham uma vida normal. Até que, numa noite, o pai revela ter sido visitado por um anjo. O ser celestial teria incumbido à família uma missão: destruir os demônios, disfarçados de humanos, que estariam dominando o mundo. Armado com um machado, o pai começa o trabalho. Enquanto o caçula embarca na história, o mais velho, me permitindo o trocadilho, come o pão que o diabo amassou.
Parece trash, não? Mas, ainda bem, não é. A violência gráfica é mínima. O filme não é sobre machadadas. A abordagem escolhida é de um menino que vê sua família enlouquecer e não consegue lutar contra. A opção pelo aspecto psicológico aumenta a tensão da trama, evitando que se torne uma versão familiar de “Sexta- feira 13”. A sobriedade visual do filme também funciona nesse sentido. Os ângulos e a montagem permitem a história surgir na tela por si mesma. Uma prova de como a ausência de virtuosismo visual pode ser uma ferramenta poderosa. Numa época em que tudo que é filme precisa ter “edição ou visual mudernos”, é gratificante assistir uma obra filmada de maneira simples e de forma que não apenas se encaixa, mas contribui para passar o aspecto sensorial da história. Por incrível que pareça, é até uma opção ousada. Para ver como a estética “ágil” transformou- se em afetação...
A condução da história também é muito boa. Simples, como dito acima, mas interessante e prende pela tensão. A parte em flashback nunca fica exagerada. No que, se tratando de um tema como esse, deve ser lembrado.
Outro mérito do filme são as atuações. Bill Paxton, que além de dirigir, interpreta o fanático religioso é assustador e, ao mesmo tempo, digno de alguma compaixão. Apesar da loucura e violência de seu personagem, ainda desperta simpatia, com seu amor a família. As crianças também têm ótimas atuações. Elas merecem todo o destaque, pois enfrentam cenas difíceis para qualquer ator em qualquer idade de forma convincente.
Então, isso significa que “A Mão do Diabo” é um grande filme esperando para ser descoberto? Errado! E por quê? Porque, ao final, o filme dá um tiro no próprio pé! Com o fim da narração, tem- se a infeliz idéia de concluir a história do presente também. Então, o que era um ótimo suspense psicológico, torna- se “filme de reviravolta”, no pior sentido. O final chega a ser patético. Parece “Os Suspeitos” com “O Sexto Sentido”. Caso fosse apenas a história contada em flashbacks, seria um ótimo. Mas não deixe isso desanimá- lo, leitor! São poucos minutos péssimos em filme que é, em sua maior parte, no mínimo interessante, no máximo excelente.
“A Mão do Diabo” é algo raro na cinematografia atual: um filme de terror adulto. Seu público alvo é de adultos, aqueles que procuram um filme que assusta respeitando a inteligência do público. Espero, e isso deve acontecer, que se torne um clássico cult.


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