Café com pipoca

Tuesday, June 27, 2006

RIO, ZONA NORTE: TRANSFORMAÇÃO, MORTE E RECOMEÇO

Rio, Zona Norte é um filme composto de pedaços. Com essa afirmativa, refiro- me a diversos aspectos da obra. O primeiro e mais óbvio é quanto à construção narrativa. Alinhando presente com flashbacks, onde a história de fato acontece, só é compreendido em sua totalidade perto do final, quando o passado encontra a linha inicial do presente e este assume. O segundo, e mais importante, é mostrar uma situação em que dois mundos diferentes e distantes, física e ideologicamente, se encontram e colidem. De um lado temos o morro, em que habitam sambistas talentosos, trabalhadores de baixa renda, as mulatas da escola de samba e jovens deliquentes e, embaixo, os representantes da classe média, todos oportunistas de alguma maneira: o empresário corrupto, o compositor intelectual com fascínio antropológico pela favela e os artistas da rádio, ignorantes do que se passa fora de seu mundo. O terceiro pode ser visto como a inserção histórica do filme. Rio, Zona Norte é umas das primeiras manifestações de um movimento que revolucionaria a cultura brasileira, além de ser conseqüência das renovações que o país como um todo experimentava naqueles tempos.
Grande Otelo é Espírito da Luz Soares, compositor de sambas talentoso, mas desconhecido. Envolve- se com o empresário Maurício ( Jece Valadão ), que ilude Espírito com promessas de contrato com uma gravadora. Sem dinheiro, cheio de despesas e ainda tentando ajudar o filho adolescente, que está enveredando pelo caminho do crime, Espírito vende uma de suas músicas para Maurício em troca de uma quantia mínima. Ainda querendo se auto- afirmar como artista perante os outros e estabelecer- se como compositor profissional, procura a ajuda de Moacir ( Paulo Goulart ), um intelectual de classe média- alta que, após um fascínio inicial, o despreza. Na viagem de volta para cara, Espírito compõe um novo samba e, na euforia, cai do trem e morre depois. Moacir e um amigo de Espírito saem do hospital e vão para morro, buscar composições do falecido.
Através dessa trama básica, o filme pega a partir do ponto em que as relações sociais no Rio de Janeiro já estavam mudando. O morro e o asfalto, lugares distintos na aparência, na situação financeira, na cultura e nas pessoas conforme visto em Rio 40º, agora interagem com maior freqüência e “civilidade”, criando uma ilusão de igualdade. Se em Rio 40º, as crianças desciam o morro para trabalhar, agora a elite sobe em busca de algo novo, entrando em contato com a cultura local. Moradores do morro e do asfalto conversam, descobrem interesses mútuos, sem uma discriminação evidente. Em meio a euforia, tanto a periferia quanto o asfalto caem numa falsa intimidade, que pode ser vista especialmente na seqüência em que Espírito visita Moacir. Apesar da cordialidade inicial do anfitrião, ele logo ignora seu visitante. Essa atitude é oposta a que assistimos no começo do filme, quando Moacir está no bar e chama Espírito para conversar e este o faz companhia por toda a noite. ( Vale notar a expressão de sono/ enfado de Moacir após o papo inicial. ).
O samba começa a conquistar corações e mentes e pessoas antigamente ignoradas também desejam a inserção social justa, a aceitação como iguais. Eles batalham não mais para sobreviver, mas também em busca de uma posição justa. Querem se livrar da imagem de “preto da favela” para transformar- se em “compositor de samba” e recomeçar sendo remunerado por seus atributos. Espírito da Luz, embora tome decisões equivocadas devido a questões urgentes, não se contenta com esmolas. Ele persiste para conseguir um contrato e assim, garantir não só sua estabilidade financeira, mas também reconhecimento como artista. Ao final, fica em aberto a possibilidade de Espírito vir a ter uma consagração post- mortem. Por outro lado, o final de Rio, Zona Norte também nos passa uma sensação de apropriação indevida. Quando Moacir decide subir o morro para trazer as músicas de Espírito, vemos a representação da elite pegando uma manifestação de algo que não lhe pertence. A própria caracterização do personagem como um compositor clássico frustrado mostra que ele não intimidade com aquela concepção artística, nascida fora da academia, criada a nível orgânico e não técnico. A frustração de Moacir é que, apesar de seus estudos, não consegue compor, embora saiba ler música. Pode- se dizer que a ganância de Moacir não é monetária, como Maurício, mas artística. Ele pretende tirar algo que veio do morro e levar para o asfalto, ignorando as conseqüências culturais disso. Se Espírito morre devido à queda do trem, o samba “de raiz” morre quando cai do morro, levado por alguém que não participou ativamente do movimento; logo, não compreenderá por completo qual é o significado daquilo.
Dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1957, é a segunda parte de uma trilogia inacabada. ( O primeiro foi Rio 40º e o terceiro seria Rio, Zona Sul, que nem roteirizado foi. ). É considerado um dos precursores que levariam ao Cinema Novo, movimento que retratava a sociedade e cultura brasileiras na tela. Os cinema- novistas queriam enterrar o passado de um cinema voltado a alienação e transformar a sétima arte num instrumento para modificar a realidade, promovendo uma revolução que viria da cultura para a sociedade.
Rio, Zona Norte foi um fracasso de bilheteria e crítica. Se por um lado, os espectadores não pareciam dispostos a encarar frontalmente uma realidade que, apesar das mudanças sociais ocorridas, ainda era desconhecida por aqueles que desejavam se manter alheios aos acontecimentos; do outro, os críticos viam como uma tentativa mal- sucedida em imitar o modelo neo- realista italiano. Rio, Zona Norte, apesar de sua proposta de transformação, morreu para o público, que não estava habituado com esse tipo de temática e narrativa. Tornou- se um pedaço num todo que, anos após, promoveria o recomeço da arte cinematográfica no Brasil e a maneira de como o brasileiro encarava a realidade do país e sua função nela.

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