Café com pipoca

Tuesday, June 27, 2006

CRÍTICA: “CAZUZA- O TEMPO NÃO PÁRA”

Muita ousadia para pouco filme

É um bom filme. Pronto, disse. Não é extraordinário, não é forte, não é “Sid e Nancy” ou “The Doors”. Por sinal, sua proposta se assemelha bastante com a de “The Doors”. Inicialmente, pelo menos. É um retrato do mito. O Cazuza Maior do que a Vida. Esse personagem permanece na tela por 2/3 do filme. O terço final é o confronto forçado do protagonista com a realidade. Ninguém vive para sempre. No entanto, alguns se tornam imortais. Foi o que aconteceu com o Cazuza real. É o que o filme, como um todo, tenta mostrar.
Eu não devia ter lido as críticas do filme antes de assistí- lo. É um defeito meu. Nesse caso, acho que me prejudicou. A impressão inicial que poderia ter, não pôde vir à tona. Talvez até viesse, mas não teria direcionado tanto minha atenção para esses fatores. Vou ser mais claro: tem duas coisas apontadas nas resenhas anteriores que concordo. Uma delas acredito ser proposital, outra acidental.
Começo pela acidental, por ser mais rápida: algumas falas do Cazuza são “recitadas” demais. Como “recitadas”? Quando o Cazuza encontra pela primeira vez o Barão Vermelho ou conversa com o pai, João, na saída da sauna: o que sai da sua boca não soa natural. É muito perfeito, é muito certo, é uma frase decorada. Se Cazuza decorava frases de efeito, tudo bem, então faria sentido. Como acho que não, parece áudio de um “Manual da Sabedoria Jovem”. Não vem naturalmente no papo. É como se os outros dessem uma deixa para ele soltar mais uma “pílula de sabedoria”. Como não discípulo de Mestre Gafanhoto, isso me deixou de saco cheio. É tão forçado que até a entonação do Daniel de Oliveira muda. Preste atenção.
Muito bem, agora a proposital: a narrativa. Primeiro, os 2/3 iniciais. O filme opta por mostrar momentos maiores do protagonista, o Cazuza Maior do que a Vida. Como numa edição de coletânea de hits, tipo Millenium, para a vida de uma pessoa, transposto em imagens. Isso pode ter duas explicações: 1ª ) os diretores tentaram resumir uma vida intensa demais para duas horas e pouco de filme e deram mal. É impossível mostrar fielmente uma personalidade rebelde optando apenas por seus momentos mais energéticos. Você cria um personagem, não uma pessoa. Mas, como disse, a opção parece ser pelo mito. Dentro desse contexto, essa “vida em videoclipe” e até as “falas de sabedoria” ( por mais irritantes que sejam ) se justificam. Opção pelo Ídolo Cazuza e não Cazuza, o homem. Essa trilha foi aberta por “The Doors” e, como visto, pode funcionar muito bem.
O bicho pega no último terço. Nesse ato, nosso herói descobre que está doente e é obrigado a descer do pedestal. O sonho acabou. Agora, temos um filme que se preocupa com seu protagonista, ao invés de restringir a “causos”. É lento, reflexivo, é triste. É outro filme. A maneira escolhida para mostrar quando Cazuza admitiu publicamente sua doença ilustra isso. Física e espiritualmente, Cazuza também muda. Não tem mais como se esconder. O “Exagerado” vai para o “Reflexivo”. Nesse contexto de humanizar o protagonista, vou polemizar: Ney Matogrosso faz falta. Em meio à doença, um amor ajudaria ainda mais a mostrar o lado humano de Cazuza. Pessoalmente, é minha parte favorita. A seqüência em que João arromba a casa do filho realmente me emocionou.
Infelizmente, a meu ver, as duas partes não se encaixam. Talvez fosse o desejo de passar para o filme a mudança radical da vida do protagonista para a tela. É uma justificativa. Mas não cola pra mim. Por quê? Não é rabugice. É que, no desejo de agradar, entrega duas partes e confunde o público: “Esse é um filme sobre o mito ou o homem?” Entretanto, esse nem é o grande problema. A meu ver, o retrato sempre positivo de seu protagonista termina por prejudicar a obra. Ele é mimado, egoísta, inconseqüente, mas é o Cazuza, então perdoa- se. “Não liga, é molecagem”. O filme funciona como a mãe supreprotetora: sabe que o filho faz merda, mas releva. Ele pode tudo. O único momento em que o filme deixa seu protagonista ser digno de censura é no escândalo do restaurante. Mas é um período de transição para o último terço e, quando a verdade for revelada, nada disso importará mais. O que me incomoda é o seguinte: como mostrar uma pessoa ou mito sem suas características mais censuráveis? Vale notar, que apesar de haver drogas no filme, elas mal aparecem. Nesse sentido, “Cazuza” se torna “Quase famosos”, esse sim um filme assumidamente protetor, carinhoso, uma viagem pessoal. “Cazuza” é, teoricamente, impessoal. Sua história não é vista pela ótica de ninguém. Deveria ser impessoal. Mas não é isso que vê- se na tela. Funciona mais como uma adaptação do livro da Lucinha Araújo, mãe de Cazuza.
Agora, mais do que já dito, mais do mesmo, senhoras e senhores: Daniel de Oliveira tá foda! Além de vestir o personagem, ele veste o filme. Passa sem problemas do êxtase juvenil ao final ponderado. Os pais, Reginaldo Faria e Marieta Severo, também não fazem feio. Mas, outro mais do mesmo, sem a interpretação de Daniel de Oliveira, esse filme poderia ser um constrangimento digno de exílio.
Enfim, não satisfaz em plenitude, no que poderia ter sido. Fica no correto. A meu ver, a grande culpada por isso é Sandra Werneck. Diretora dos água com açúcar “Pequeno Dicionário Amoroso” e “Amores Possíveis”, ela realiza mais uma obra dentro de seu estilo: o piloto automático. O que é preciso para essa mulher despertar, choques? Voltando ao assunto: é um bom filme, pode ver sem problemas. Faz justiça ao biografado. Embora não apresente, nem de longe a ousadia e genialidade do Cazuza real.

Obs.1: Vejam a verdadeira Lucinha Araújo e Marieta Severo na seqüência do show “Ideologia”. A semelhança entre as duas impressiona.
Obs.2: A fotografia é maravilhosa. Walter Carvalho não brinca em serviço. A reconstituição de época também é primorosa.
Obs.3: É incrível como as músicas de Cazuza ficam na cabeça. O cara é foda mesmo.
Obs. 4: Essa crítica foi escrita ao som de músicas de Cazuza.
Obs.5: “Todo o amor que houver nessa vida para vocês!”

A MÃO DO DIABO

Você já ouviu falar nesse filme? Não? Nenhuma surpresa. Apesar de ter sido lançado nos cinemas, “A Mão do Diabo” nunca teve grande projeção. Pessoalmente, acho surpreendente esse pequeno filme ter tido uma chance na seletiva ( entendam como quiserem ) cadeia de cinemas brasileira. Agora, enquanto escrevo ( fim de julho de 2004 ), estreou na TV a cabo. Novamente sem alarde. Não sei se esta humilde crítica fará com que as pessoas se interessem em descobrir o filme. Caso surta efeito, acho que não se arrependerão.
A trama do filme é, no mínimo interessante: um homem vai ao escritório de um agente do FBI encarregado de investigar um assassino serial chamado “Mão de Deus”. O homem confessa que o criminoso seria seu irmão mais novo e, para provar seu ponto, relata a infância deles. Criados por um pai viúvo, tinham uma vida normal. Até que, numa noite, o pai revela ter sido visitado por um anjo. O ser celestial teria incumbido à família uma missão: destruir os demônios, disfarçados de humanos, que estariam dominando o mundo. Armado com um machado, o pai começa o trabalho. Enquanto o caçula embarca na história, o mais velho, me permitindo o trocadilho, come o pão que o diabo amassou.
Parece trash, não? Mas, ainda bem, não é. A violência gráfica é mínima. O filme não é sobre machadadas. A abordagem escolhida é de um menino que vê sua família enlouquecer e não consegue lutar contra. A opção pelo aspecto psicológico aumenta a tensão da trama, evitando que se torne uma versão familiar de “Sexta- feira 13”. A sobriedade visual do filme também funciona nesse sentido. Os ângulos e a montagem permitem a história surgir na tela por si mesma. Uma prova de como a ausência de virtuosismo visual pode ser uma ferramenta poderosa. Numa época em que tudo que é filme precisa ter “edição ou visual mudernos”, é gratificante assistir uma obra filmada de maneira simples e de forma que não apenas se encaixa, mas contribui para passar o aspecto sensorial da história. Por incrível que pareça, é até uma opção ousada. Para ver como a estética “ágil” transformou- se em afetação...
A condução da história também é muito boa. Simples, como dito acima, mas interessante e prende pela tensão. A parte em flashback nunca fica exagerada. No que, se tratando de um tema como esse, deve ser lembrado.
Outro mérito do filme são as atuações. Bill Paxton, que além de dirigir, interpreta o fanático religioso é assustador e, ao mesmo tempo, digno de alguma compaixão. Apesar da loucura e violência de seu personagem, ainda desperta simpatia, com seu amor a família. As crianças também têm ótimas atuações. Elas merecem todo o destaque, pois enfrentam cenas difíceis para qualquer ator em qualquer idade de forma convincente.
Então, isso significa que “A Mão do Diabo” é um grande filme esperando para ser descoberto? Errado! E por quê? Porque, ao final, o filme dá um tiro no próprio pé! Com o fim da narração, tem- se a infeliz idéia de concluir a história do presente também. Então, o que era um ótimo suspense psicológico, torna- se “filme de reviravolta”, no pior sentido. O final chega a ser patético. Parece “Os Suspeitos” com “O Sexto Sentido”. Caso fosse apenas a história contada em flashbacks, seria um ótimo. Mas não deixe isso desanimá- lo, leitor! São poucos minutos péssimos em filme que é, em sua maior parte, no mínimo interessante, no máximo excelente.
“A Mão do Diabo” é algo raro na cinematografia atual: um filme de terror adulto. Seu público alvo é de adultos, aqueles que procuram um filme que assusta respeitando a inteligência do público. Espero, e isso deve acontecer, que se torne um clássico cult.

RIO, ZONA NORTE: TRANSFORMAÇÃO, MORTE E RECOMEÇO

Rio, Zona Norte é um filme composto de pedaços. Com essa afirmativa, refiro- me a diversos aspectos da obra. O primeiro e mais óbvio é quanto à construção narrativa. Alinhando presente com flashbacks, onde a história de fato acontece, só é compreendido em sua totalidade perto do final, quando o passado encontra a linha inicial do presente e este assume. O segundo, e mais importante, é mostrar uma situação em que dois mundos diferentes e distantes, física e ideologicamente, se encontram e colidem. De um lado temos o morro, em que habitam sambistas talentosos, trabalhadores de baixa renda, as mulatas da escola de samba e jovens deliquentes e, embaixo, os representantes da classe média, todos oportunistas de alguma maneira: o empresário corrupto, o compositor intelectual com fascínio antropológico pela favela e os artistas da rádio, ignorantes do que se passa fora de seu mundo. O terceiro pode ser visto como a inserção histórica do filme. Rio, Zona Norte é umas das primeiras manifestações de um movimento que revolucionaria a cultura brasileira, além de ser conseqüência das renovações que o país como um todo experimentava naqueles tempos.
Grande Otelo é Espírito da Luz Soares, compositor de sambas talentoso, mas desconhecido. Envolve- se com o empresário Maurício ( Jece Valadão ), que ilude Espírito com promessas de contrato com uma gravadora. Sem dinheiro, cheio de despesas e ainda tentando ajudar o filho adolescente, que está enveredando pelo caminho do crime, Espírito vende uma de suas músicas para Maurício em troca de uma quantia mínima. Ainda querendo se auto- afirmar como artista perante os outros e estabelecer- se como compositor profissional, procura a ajuda de Moacir ( Paulo Goulart ), um intelectual de classe média- alta que, após um fascínio inicial, o despreza. Na viagem de volta para cara, Espírito compõe um novo samba e, na euforia, cai do trem e morre depois. Moacir e um amigo de Espírito saem do hospital e vão para morro, buscar composições do falecido.
Através dessa trama básica, o filme pega a partir do ponto em que as relações sociais no Rio de Janeiro já estavam mudando. O morro e o asfalto, lugares distintos na aparência, na situação financeira, na cultura e nas pessoas conforme visto em Rio 40º, agora interagem com maior freqüência e “civilidade”, criando uma ilusão de igualdade. Se em Rio 40º, as crianças desciam o morro para trabalhar, agora a elite sobe em busca de algo novo, entrando em contato com a cultura local. Moradores do morro e do asfalto conversam, descobrem interesses mútuos, sem uma discriminação evidente. Em meio a euforia, tanto a periferia quanto o asfalto caem numa falsa intimidade, que pode ser vista especialmente na seqüência em que Espírito visita Moacir. Apesar da cordialidade inicial do anfitrião, ele logo ignora seu visitante. Essa atitude é oposta a que assistimos no começo do filme, quando Moacir está no bar e chama Espírito para conversar e este o faz companhia por toda a noite. ( Vale notar a expressão de sono/ enfado de Moacir após o papo inicial. ).
O samba começa a conquistar corações e mentes e pessoas antigamente ignoradas também desejam a inserção social justa, a aceitação como iguais. Eles batalham não mais para sobreviver, mas também em busca de uma posição justa. Querem se livrar da imagem de “preto da favela” para transformar- se em “compositor de samba” e recomeçar sendo remunerado por seus atributos. Espírito da Luz, embora tome decisões equivocadas devido a questões urgentes, não se contenta com esmolas. Ele persiste para conseguir um contrato e assim, garantir não só sua estabilidade financeira, mas também reconhecimento como artista. Ao final, fica em aberto a possibilidade de Espírito vir a ter uma consagração post- mortem. Por outro lado, o final de Rio, Zona Norte também nos passa uma sensação de apropriação indevida. Quando Moacir decide subir o morro para trazer as músicas de Espírito, vemos a representação da elite pegando uma manifestação de algo que não lhe pertence. A própria caracterização do personagem como um compositor clássico frustrado mostra que ele não intimidade com aquela concepção artística, nascida fora da academia, criada a nível orgânico e não técnico. A frustração de Moacir é que, apesar de seus estudos, não consegue compor, embora saiba ler música. Pode- se dizer que a ganância de Moacir não é monetária, como Maurício, mas artística. Ele pretende tirar algo que veio do morro e levar para o asfalto, ignorando as conseqüências culturais disso. Se Espírito morre devido à queda do trem, o samba “de raiz” morre quando cai do morro, levado por alguém que não participou ativamente do movimento; logo, não compreenderá por completo qual é o significado daquilo.
Dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1957, é a segunda parte de uma trilogia inacabada. ( O primeiro foi Rio 40º e o terceiro seria Rio, Zona Sul, que nem roteirizado foi. ). É considerado um dos precursores que levariam ao Cinema Novo, movimento que retratava a sociedade e cultura brasileiras na tela. Os cinema- novistas queriam enterrar o passado de um cinema voltado a alienação e transformar a sétima arte num instrumento para modificar a realidade, promovendo uma revolução que viria da cultura para a sociedade.
Rio, Zona Norte foi um fracasso de bilheteria e crítica. Se por um lado, os espectadores não pareciam dispostos a encarar frontalmente uma realidade que, apesar das mudanças sociais ocorridas, ainda era desconhecida por aqueles que desejavam se manter alheios aos acontecimentos; do outro, os críticos viam como uma tentativa mal- sucedida em imitar o modelo neo- realista italiano. Rio, Zona Norte, apesar de sua proposta de transformação, morreu para o público, que não estava habituado com esse tipo de temática e narrativa. Tornou- se um pedaço num todo que, anos após, promoveria o recomeço da arte cinematográfica no Brasil e a maneira de como o brasileiro encarava a realidade do país e sua função nela.