CRÍTICA: “CAZUZA- O TEMPO NÃO PÁRA”
Muita ousadia para pouco filme
É um bom filme. Pronto, disse. Não é extraordinário, não é forte, não é “Sid e Nancy” ou “The Doors”. Por sinal, sua proposta se assemelha bastante com a de “The Doors”. Inicialmente, pelo menos. É um retrato do mito. O Cazuza Maior do que a Vida. Esse personagem permanece na tela por 2/3 do filme. O terço final é o confronto forçado do protagonista com a realidade. Ninguém vive para sempre. No entanto, alguns se tornam imortais. Foi o que aconteceu com o Cazuza real. É o que o filme, como um todo, tenta mostrar.
Eu não devia ter lido as críticas do filme antes de assistí- lo. É um defeito meu. Nesse caso, acho que me prejudicou. A impressão inicial que poderia ter, não pôde vir à tona. Talvez até viesse, mas não teria direcionado tanto minha atenção para esses fatores. Vou ser mais claro: tem duas coisas apontadas nas resenhas anteriores que concordo. Uma delas acredito ser proposital, outra acidental.
Começo pela acidental, por ser mais rápida: algumas falas do Cazuza são “recitadas” demais. Como “recitadas”? Quando o Cazuza encontra pela primeira vez o Barão Vermelho ou conversa com o pai, João, na saída da sauna: o que sai da sua boca não soa natural. É muito perfeito, é muito certo, é uma frase decorada. Se Cazuza decorava frases de efeito, tudo bem, então faria sentido. Como acho que não, parece áudio de um “Manual da Sabedoria Jovem”. Não vem naturalmente no papo. É como se os outros dessem uma deixa para ele soltar mais uma “pílula de sabedoria”. Como não discípulo de Mestre Gafanhoto, isso me deixou de saco cheio. É tão forçado que até a entonação do Daniel de Oliveira muda. Preste atenção.
Muito bem, agora a proposital: a narrativa. Primeiro, os 2/3 iniciais. O filme opta por mostrar momentos maiores do protagonista, o Cazuza Maior do que a Vida. Como numa edição de coletânea de hits, tipo Millenium, para a vida de uma pessoa, transposto em imagens. Isso pode ter duas explicações: 1ª ) os diretores tentaram resumir uma vida intensa demais para duas horas e pouco de filme e deram mal. É impossível mostrar fielmente uma personalidade rebelde optando apenas por seus momentos mais energéticos. Você cria um personagem, não uma pessoa. Mas, como disse, a opção parece ser pelo mito. Dentro desse contexto, essa “vida em videoclipe” e até as “falas de sabedoria” ( por mais irritantes que sejam ) se justificam. Opção pelo Ídolo Cazuza e não Cazuza, o homem. Essa trilha foi aberta por “The Doors” e, como visto, pode funcionar muito bem.
O bicho pega no último terço. Nesse ato, nosso herói descobre que está doente e é obrigado a descer do pedestal. O sonho acabou. Agora, temos um filme que se preocupa com seu protagonista, ao invés de restringir a “causos”. É lento, reflexivo, é triste. É outro filme. A maneira escolhida para mostrar quando Cazuza admitiu publicamente sua doença ilustra isso. Física e espiritualmente, Cazuza também muda. Não tem mais como se esconder. O “Exagerado” vai para o “Reflexivo”. Nesse contexto de humanizar o protagonista, vou polemizar: Ney Matogrosso faz falta. Em meio à doença, um amor ajudaria ainda mais a mostrar o lado humano de Cazuza. Pessoalmente, é minha parte favorita. A seqüência em que João arromba a casa do filho realmente me emocionou.
Infelizmente, a meu ver, as duas partes não se encaixam. Talvez fosse o desejo de passar para o filme a mudança radical da vida do protagonista para a tela. É uma justificativa. Mas não cola pra mim. Por quê? Não é rabugice. É que, no desejo de agradar, entrega duas partes e confunde o público: “Esse é um filme sobre o mito ou o homem?” Entretanto, esse nem é o grande problema. A meu ver, o retrato sempre positivo de seu protagonista termina por prejudicar a obra. Ele é mimado, egoísta, inconseqüente, mas é o Cazuza, então perdoa- se. “Não liga, é molecagem”. O filme funciona como a mãe supreprotetora: sabe que o filho faz merda, mas releva. Ele pode tudo. O único momento em que o filme deixa seu protagonista ser digno de censura é no escândalo do restaurante. Mas é um período de transição para o último terço e, quando a verdade for revelada, nada disso importará mais. O que me incomoda é o seguinte: como mostrar uma pessoa ou mito sem suas características mais censuráveis? Vale notar, que apesar de haver drogas no filme, elas mal aparecem. Nesse sentido, “Cazuza” se torna “Quase famosos”, esse sim um filme assumidamente protetor, carinhoso, uma viagem pessoal. “Cazuza” é, teoricamente, impessoal. Sua história não é vista pela ótica de ninguém. Deveria ser impessoal. Mas não é isso que vê- se na tela. Funciona mais como uma adaptação do livro da Lucinha Araújo, mãe de Cazuza.
Agora, mais do que já dito, mais do mesmo, senhoras e senhores: Daniel de Oliveira tá foda! Além de vestir o personagem, ele veste o filme. Passa sem problemas do êxtase juvenil ao final ponderado. Os pais, Reginaldo Faria e Marieta Severo, também não fazem feio. Mas, outro mais do mesmo, sem a interpretação de Daniel de Oliveira, esse filme poderia ser um constrangimento digno de exílio.
Enfim, não satisfaz em plenitude, no que poderia ter sido. Fica no correto. A meu ver, a grande culpada por isso é Sandra Werneck. Diretora dos água com açúcar “Pequeno Dicionário Amoroso” e “Amores Possíveis”, ela realiza mais uma obra dentro de seu estilo: o piloto automático. O que é preciso para essa mulher despertar, choques? Voltando ao assunto: é um bom filme, pode ver sem problemas. Faz justiça ao biografado. Embora não apresente, nem de longe a ousadia e genialidade do Cazuza real.
Obs.1: Vejam a verdadeira Lucinha Araújo e Marieta Severo na seqüência do show “Ideologia”. A semelhança entre as duas impressiona.
Obs.2: A fotografia é maravilhosa. Walter Carvalho não brinca em serviço. A reconstituição de época também é primorosa.
Obs.3: É incrível como as músicas de Cazuza ficam na cabeça. O cara é foda mesmo.
Obs. 4: Essa crítica foi escrita ao som de músicas de Cazuza.
Obs.5: “Todo o amor que houver nessa vida para vocês!”

