Café com pipoca

Saturday, October 07, 2006

FALA PESSOA

Em seu livro Introdução ao documentário, Bill Nichols cita um princípio chamado: Eu falo deles para vocês. O eu da frase se refere ao diretor- autor, que, com sua visão, transformará seu objeto de estudo ( eles ) em algo próximo a seu objetivo, ou seja, o que ele quer mostrar ao público ( vocês ). Nos filmes A pessoa é para o que nasce ( Roberto Berliner, 2003 ) e Fala tu ( Guilherme Coelho, 2004 ), temos dois eus com visões bem divergentes entre si. Enquanto o primeiro usa uma linguagem com elementos do cinema de ficção para narrar a trajetória das três irmãs, o segundo utiliza de entrevistas e observação para contar um pouco da vida de três moradores da periferia carioca.
O único ponto em comum são os personagens de classe baixa que têm na música um elemento forte em suas vidas. Mesmo o fato de haver a consciência da filmagem é trabalhado de forma diferente. Em Fala tu, tenta- se interferir o mínimo possível. Só se aproxima quando colhe depoimentos diretos. Quando observa, está à distância ou seguindo as costas de seus personagens. As menções à câmera são mínimas, discretas. A opção de seus realizadores é pelo formato reportagem, retratando a situação com as ferramentas que dispõem e tentando ao máximo se manter invisíveis. Como jornalistas privilegiados, assumem o papel de testemunhas da ação, cuja função é reportar o que presenciam.
Já em A pessoa..., Berliner faz o extremo oposto de Coelho. Torna- se personagem na última metade da história e chega a botar câmeras em suas protagonistas, mostrando inclusive uma seqüência em que elas tateiam o equipamento. A pessoa... se assume como filme desde a abertura, quando mostra as irmãs no topo de uma ladeira, ao som de uma trilha edificante e faz um efeito de como se o rolo estivesse queimando. Ele abusa da metalinguagem e de imagens fabricadas ( tanto de arquivo quanto por ele mesmo. ). Berliner faz das irmãs atrizes de sua própria história. Como um Nanook do nordeste, Berliner ( e todos os outros no filme ) parece mais fascinado pelo o que suas protagonistas transmitem do que pelo o que elas realmente são e, tal como Flaherty, altera a realidade de modo a se encaixar em sua concepção. Assume- se, no entanto, uma linguagem mais documental no terço final, quando retorna e encontra suas personagens em estado de miséria.
A pessoa... é mais experimental esteticamente, embora esse virtuosismo não seja mais do que o visto em bons comercias ou videoclipes. A montagem também remete a isso, com cortes contínuos e ligeiros. Ao invés da contemplação, o autor busca sensações imediatas do espectador. A ordem parece ser não cansar o espectador com muito papo, sempre oferecendo algo interessante para ver. Berliner optou por contar a história de uma forma que entretenha, atraindo o máximo de público para um filme que facilmente poderia ser tornar mais um registro de flagelados. Se o documentário é um gênero que revela um olhar sobre a realidade, o de Berliner certamente é holiudiano. Pode parecer pejorativo, mas é muito interessante narrar como espetáculo a história de três anônimas que encontram a fama ( e o ocaso ) quase que da noite para dia.
Fala tu conserva a formalidade do cinema de observação. Sua montagem é igualmente tradicional, deixando os personagens falarem, a ação transcorrer e, então, corta para outro plano. Visualmente, lembra os documentários de Eduardo Coutinho, inspiração assumida dos autores. Sem nenhuma inovação ou ousadia estética, acredita no poder de seus personagens e confia o filme todo a eles. O que dá certo, pois os três ( especialmente o apontador de jogo do bicho, Macarrão. ) são carismáticos e dialogam bem com a câmera. Agem de maneira natural, embora estejam sendo filmados de perto o tempo todo. É como um Big Brother: o olho que tudo vê e nos mostra pedaços da vida dessas pessoas. A diferença é que esse olho fala nos momentos em o diretor faz perguntas aos personagens e estes respondem com a naturalidade de uma conversa de bar. Por sinal, a ausência desse elemento é nítida em A pessoa... Duas das três cantoras passam o filme virtualmente caladas, tornando- se coadjuvantes da irmã mais velha. Outro fator que talvez tenha influenciado é que as personagens estarem em uma situação extraordinária, fora do ambiente em que estão acostumadas. Em Fala tu, embora todos os personagens ( com exceção de DJ A, mas este tem uma participação pequena. ) tenham praticamente o mesmo espaço na tela, Macarrão se sobrepõe. O título, aliás, veio de uma gíria inventada por ele, o que mostra a importância de sua trama.

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